sábado, 28 de janeiro de 2012

Eric Hobsbawm: a História como síntese interpretativa por um homem que historiava...

... a História!
Eric Hobsbawm é provavelmente o historiador de língua inglesa mais traduzido e publicado no Brasil.
Seus livros, notáveis pela abrangência temática e pela qualidade da síntese, foram se tornando, desde a década de 70, leituras obrigatórias nos cursos brasileiros de História. Historiador de formação marxista, tendo estudado em grandes universidades européias, sua obra procurou compreender a História Contemporânea através de momentos chaves, assinalados por tensões e conflitos sociais e que resultaram em revoluções e guerras.
Sua escrita da História foi dirigida, na maioria das vezes, não para um fechado circuito de especialistas, mas para um público de leitores cultos, para aqueles que desejam saber como e porque o mundo chegou a ser o que é hoje e para onde caminha. As suas Eras foram dirigidas para esses leitores e, apesar de se constituírem em obras autônomas, representam no conjunto um magnífico painel da História Contemporânea.
A Era das Revoluções, cuja primeira edição inglesa é de 1962, estudava as transformações do mundo entre 1789 e 1848, buscando compreender o alcance do que Hobsbawm chamou de “dupla revolução” (a francesa de 1789 e a revolução industrial britânica). Desde o início, porém, as Eras foram marcadas pela tentativa de abranger os efeitos mundiais das grandes transformações ocorridas na Europa. O autor não se propunha a realizar uma narração detalhada dos fatos, mas uma interpretação - identificada com o que os franceses chamam de “alta vulgarização” e construída necessariamente a partir da síntese bibliográfica.
Nos quatro livros das Eras, além do período das revoluções, Hobsbawm tratou da Era do Capital: 1848-1875, da Era dos Impérios: 1875-1914 e da Era dos Extremos.O breve século XX: 1914-1991, sempre preocupado em fornecer o sentido histórico de cada uma dessas temporalidades e identificar “as raízes de nosso mundo contemporâneo”.
 Seu objetivo permanente, reiterado no terceiro livro da série, foi “ver o passado como um todo coerente e não (como a especialização histórica tantas vezes nos força a vê-lo) como uma montagem de tópicos isolados: a história de diferentes Estados, da política, da economia, da cultura ou outros)”.
Hobsbawm revelava que sempre quis saber “como se articulam todos esses aspectos da vida passada (ou presente) e por quê”, porém nunca pretendeu ficar num plano meramente descritivo, antes privilegiando a argumentação sobre uma questão básica que atravessaria os seus capítulos.
É evidente que Hobsbawm orientou a sua construção historiográfica a partir de uma ambição totalizante, muito cara ao marxismo, mas soube fazê-lo com sensibilidade, ampla cultura geral e abertura para novas formulações oriundas de outras tendências historiográficas. Abertura que deve ter desagradado àqueles que, do lado de cá do Atlântico Sul, vivem incomodados com o que chamam “modismos pós-modernos” ou “desvios irracionalistas” das temáticas clássicas da ortodoxia marxista.
Na introdução de A Era dos Impérios Hobsbawm usou como epígrafe uma passagem de Pierre Nora em Les Lieux de Mémoire, onde a história aparece como “a sempre incompleta e problemática construção do que já não existe”. Nesta citação, Nora, ao demarcar as distinções entre memória e história também afirma: “A memória sempre pertence a nossa época e está intimamente ligada ao presente eterno; a história é uma representação do passado”.
Hobsbawm , ao problematizar o período 1875-1914, começa pela própria história da sua família valendo-se da memória para motivar a penetração num tempo que se fecha na altura do seu próprio nascimento.
Recorre, portanto, a uma dimensão biográfica e individualizada da existência humana para falar de um tempo socialmente repartido. E é curioso que tenha lançado mão de Pierre Nora, uma personalidade central no campo da editoração de obras históricas na França.
A heterodoxia de Hobsbawm certamente não deve ter agradado àqueles que, mesmo sem muita familiaridade com a produção historiográfica internacional, apontam de forma condenatória para o que seria a “nossa francofilia” no campo dos estudos históricos.
O exame cuidadoso das quatro Eras, publicadas entre 1962 e 1994, mostra um autor em permanente evolução apesar de fiel às suas inquietações originais. No trato da questão nacional na história contemporânea, por exemplo, Eric Hobsbawm apresentou sensíveis mudanças, reveladas na forma como o fenômeno nacional foi sendo revisto em cada uma das Eras.
E exatamente num tema muitas vezes escamoteado no debate marxista. Numa de suas obras mais instigantes, Nações e Nacionalismo desde 1780, publicado no Brasil em 1990, as mudanças no seu pensamento ficam mais evidentes quando refaz a periodização do fenômeno, identificando três momentos: o primeiro, no século XVIII, em especial a partir da conjuntura da Revolução Francesa, produzindo a idéia política de nação; o segundo, o tempo da construção do estado-nação com a sua função de pedra angular do desenvolvimento econômico-capitalista e o terceiro tempo, o do nacionalismo - que emerge com a democratização da política. Hobsbawm, desde a primeira metade dos anos 80, vinha chamando a atenção para este terceiro tempo, que tornava possíveis os movimentos nacionais “de baixo”, mais do que os “de cima”. Assim considerava que era “neste momento que a nação começa a tornar-se um problema”.
As posições que Hobsbawm foi reformulando no tempo indicam um intelectual livre de ortodoxias e que sempre procurou investir contra as mistificações no conhecimento do passado e do presente humanos.
Outro excelente exemplo das inovações de Hobsbawm foi a coletânea que coordenou com Terence Ranger, A Invenção das Tradições, onde tomava o estudo das tradições como um caminho para esclarecer as relações humanas com o passado e, consequentemente, a história da história e do ofício de historiador.
Para Hobsbawm todos os historiadores “contribuem, conscientemente ou não, para a criação, demolição e reestruturação de imagens do passado que pertencem não só ao mundo da investigação especializada, mas também à esfera pública onde o homem atua como ser político”. Hobsbawm considerava neste livro que os historiadores deveriam estar atentos a esta dimensão de suas atividades.
O que tem nos levado a defender a Historiografia como um campo específico da pesquisa histórica, sob a exigência da necessária construção de uma epistemologia crítica da história - algo que ainda encontra muitas resistências em ambientes acadêmicos aprisionados num empirismo rudimentar e em velhas superstições positivistas.
Em 1997 Hobsbawm publicou um novo livro, imediatamente traduzido para o português e lançado recentemente pela dinâmica Companhia das Letras. Trata-se de um livro de ensaios intitulado On History (Sobre História, na edição brasileira) onde o historiador inglês reuniu textos que tiveram sua origem em conferências, resenhas, artigos de revistas e uma introdução ao Manifesto Comunista.
O livro apresenta a marca de originalidade e a erudição que sempre caracterizaram o autor. Hobsbawm discute a História Contemporânea com os olhos postos, mais do que nunca, no presente vivido, sem omitir a sua própria experiência intelectual e política, não ocultando ter dedicado grande parte de sua vida “a uma esperança que foi claramente desapontada, e para uma causa que evidentemente fracassou: o comunismo iniciado pela Revolução de Outubro”.
Por outro lado considera que “nada como uma derrota para aguçar a mente do historiador”. Cita Reinhard Koselleck, a quem considera como “um velho amigo de convicções muito diferentes”, quando este comenta que no curto prazo “a história pode ser feita pelos vencedores”, mas que no longo prazo “os ganhos em compreensão histórica têm advindo dos derrotados”.
Mesmo relativizando as avaliações de Koselleck, Hobsbawm também faz uma avaliação positiva das possibilidades historiográficas contemporâneas. Para ele “o fim do milênio deve inspirar muita história boa e inovadora. Isso porque, à medida que o século termina, o mundo está mais cheio de pensadores derrotados preocupados com uma variedade muito ampla de insígnias ideológicas que de pensadores triunfantes - principalmente entre aqueles com idade suficiente para terem longas memórias”.
Hobsbawm discute, nos vinte e dois ensaios, temas como: o problema das identidades nacionais na Europa Central, o significado do Manifesto Comunista, a contribuição de Marx para a História, a Revolução Russa, as relações entre historiadores e economistas, a assimilação pós-moderna da narrativa historiográfica a outras formas de narrativa, as relações entre a escola dos Annales e a historiografia britânica e a noção de progresso no conhecimento histórico, entre outros. São reflexões de quem se dedica há cinqüenta anos ao ofício de historiador e de um intelectual que, naturalmente, aproveitou as conferências para explicitar as suas concepções teóricas e metodológicas.
Contudo, o leitor atento deve examinar cuidadosamente a forma como o historiador inglês retoma, no Prefácio, dois temas centrais nas discussões propostas no livro: a questão da verdade na história e o problema da abordagem marxista da história.
Para a primeira questão, as opiniões de Hobsbawm são categóricas, em especial quando afirma defender “vigorosamente a opinião de que aquilo que os historiadores investigam é real”.
Para ele os historiadores devem partir de uma distinção fundamental entre “fato comprovável e ficção, entre declarações históricas baseadas em evidências e sujeitas a evidenciação e aquelas que não o são”.
Hobsbawm investe contra os pensadores que mesmo se julgando de esquerda “negam que a realidade objetiva seja acessível, uma vez que o que chamamos de 'fatos' apenas existem como uma função de conceitos e problemas prévios formulados em termos dos mesmos”. Irrita-se desmesuradamente com aqueles que considerariam o passado como um “construto de nossas mentes”.
O que impressiona nas afirmações do Prefácio é a retomada de um dogmatismo materialista difícil de reconhecer em muitos dos seus trabalhos. O historiador de A Invenção das Tradições aparece aqui como um sacerdote a reafirmar seu credo. O sectarismo passa a ocupar o lugar da argumentação e o historiador irreverente dá lugar, no seu discurso, para a defesa de atitudes daqueles que não querem a discussão epistemológica da história e que tomam o conhecimento do passado como o encontro com o já dado, como se os fatos não fossem sempre o resultado de uma escolha e de uma leitura do acontecido.
Confunde-se aí o grande historiador de obras como A Era dos Impérios com os nostálgicos de um tempo onde a confiança numa “ciência da História” sublimava as carências teóricas do campo de conhecimento. Hobsbawm parece esquecer que a história é uma disciplina que tem história e historicidade e que, na sua constituição, os historiadores muitas vezes fabularam para inventar um passado que legitimasse a nação (como no caso do século XIX) ou o estado (como no caso das trágicas experiências do nazi-fascismo e do comunismo no século XX).
No segundo tema destacado no Prefácio, Hobsbawm reitera não apenas a sua filiação ao marxismo, considerando a “concepção materialista da história” como o melhor guia para a história, mas reafirma a sua ambição permanente de desenvolvê-la como “um projeto intelectual coerente”.
Acredita, ainda, que a história “fez progressos no entendimento de como o mundo passou a ser como é hoje”. Esta é a dimensão central de sua obra, o estudo da História Contemporânea para permitir a intelegibilidade do mundo atual. Na verdade as realizações historiográficas de Hobsbawm são a melhor recomendação para a perspectiva da história a que esteve filiado. Sua ambição totalizante resultou em belas sínteses interpretativas e que foram o resultado do aproveitamento inteligente da produção historiográfica acerca do contemporâneo.
As suas sínteses são mais o resultado das obras escritas pelos seus colegas historiadores do que a conseqüência de grandes programas de pesquisa, onde ele mesmo tivesse que administrar o árduo trabalho de identificação e coleta de dados em incontáveis acervos de fontes primárias em todo o mundo. Trabalho interpretativo louvável, mas que deve ser colocado na sua exata dimensão. Afinal, foi ele mesmo que na Era das Revoluções identificou o que fazia como parte da “alta vulgarização”.
O discurso introdutório de On History, muitas vezes incoerente com o Hobsbawm leitor aberto de várias correntes e contribuições historiográficas e que soube aproveitá-las na sua obra, pode levar a divulgadores desta parte do mundo a supor que estão legitimados pelo destempero ortodoxo do velho historiador inglês.
Mas é preciso alertá-los para o fato de que a área de conhecimento vai ficando cada vez mais exigente e profissional, o que deve resultar num refinamento crítico. Sob a ambição totalizante de alguns intelectuais (que muitas vezes se autodenominam como jurássicos) ainda podem estar ocultos velhos desejos totalitários, os mesmos que conduziram ao fracasso as burocracias do Leste europeu.
O marxismo, sem dúvida, deixa um legado importante para a História como disciplina, supostamente ameaçada pela fragmentação pós-moderna. A ameaça maior para o pensamento, todavia, é aquela que interdita a crítica e que se abriga num requentado discurso conservador que teme o novo desqualificando-o como “modismo”.
É o último recurso de um autoritarismo intelectual, usual entre aqueles que confundem a ambição totalizante do conhecimento com o monolitismo das idéias e que, como carpideiras de um tempo morto, temem uma revisão epistemológica radical nos objetos e procedimentos da História.

Estas considerações sobre o autor e as possíveis recepções locais do seu último livro não devem significar uma atitude depreciativa em relação ao autor de textos admiráveis como The Jazz Scene (traduzido no Brasil como História Social do Jazz).
Fiquemos com o melhor Hobsbawm, aquele que soube aliar, nas suas sínteses interpretativas, a precisão do conhecimento econômico e político às manifestações do pensamento e da arte, sabendo manter vivo um outro importante legado das idéias socialistas, a preocupação com o humano num sentido plural.

Nenhum comentário:

Postar um comentário