quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Freud na masmorra...



Vou resumir - num resumo tosco evidentemente :) - as três estruturas que Freud, aquele bom homem, propôs para o nosso inconsciente: Id, Ego e Superego. O Id representa o foco de prazer, o Superego o foco de controle e o Ego, um diplomata, tentando ligar prazer e realidade, administrando id e superego.

Uma das possibilidades que o sadomasoquismo traz é a de uma forte *projeção* do Superego para uma entidade externa, no caso das relações de dominação feminina (femdom), a Dominadora. Ela passa a ser a "administradora dos impulsos" do Id.


Por outro lado, devemos lembrar que, fôssemos todos dirigidos pelo Id, não haveria a menor possibilidade de se estabelecer normas e papéis sociais, pois estaríamos todos atarefados em satisfazer o impulso de prazer (e, de certa forma, o impulso de morte também). Devemos lembrar que quando falamos em orientação sexual, não falamos de uma "característica cultural" ou de uma "característica natural" de uma pessoa, mas falamos de como foram se tecendo, na vida de uma pessoa, as estratégias de satisfação e repressão das formas de prazer do Id, tanto na esfera física como no repertório cultural de possibilidades de satisfação

É uma questão extremamente delicada, porque esse repertório cultural inclui os tabus, as proibições extremas que não devem ser admitidas de forma alguma por um determinado grupo social, mesmo que essas proibições sejam, racionalmente, injustificáveis.

Uma das maiores fontes de tabus são as leis ditas naturais. Deste modo, o incesto nos parece antinatural, a zoofilia nos parece antinatural e, sendo assim, a sociedade estabelece tabus para o incesto e a zoofilia.

Sob o ponto de vista da natureza, parece ser sensato admitir que só há duas identidades sexuais possíveis: mulher e homem, feminina e masculina. A morfologia externa do corpo humano se repete e se divide em dois grupos de corpos: o feminino e o masculino. As raras exceções morfológicas, o hermafroditismo, serão tratados pelas culturas como benção ou como maldição, mas nunca passarão como apenas mais um fato natural...

Toda vez que tomamos algo da natureza e o permeamos com alguma forma de linguagem, construímos um objeto cultural. Os corpos feminino e masculino sofreram as devidas reconstruções culturais e o que era morfologia física passou a ser o ponto de partida de uma coleção de papéis culturais: os papéis de gênero. Quem estudar, verificará que há uma infinidade de definições sobre gênero, nós, aqui, adotaremos a definição de que o gênero é a expressão cultural de uma identidade sexual. É uma definição limitada, mas vamos adiante assim mesmo.

A identidade sexual passou a ganhar uma expressão cultural e social por meio do gênero. Esse processo estabeleceu um vínculo tal entre a identidade sexual e sua expressão cultural que elas praticamente se fundiram: nascer com uma vagina ou com um pênis implica em ter nesses caracteres morfológicos um estigma que predetermina toda uma lista de expectativas e atitudes culturais impostas ao organismo recém-nascido.

Em nossa cultura brasileira, um bebê com vagina será tão logo que possível vestido de rosa e terá sua orelha perfurada para já sair do hospital com um pequeno brinco que nos avise tratar-se de mulher. Um bebê com pênis ganhará roupas azuis e se possível uma mini-camisa do time de futebol de seu pai, quando não bola e chuteirinha.

Não é o pênis que define a maior habilidade em arrotar e cuspir no chão, mas a permissão cultural que será dada ao macho humano para fazer certas porquices. Também não é a vagina que confere uma melhor capacidade culinária. A determinação dos papéis de gênero usará o corpo como justificativa para que a sociedade interfira, oriente, pré-determine e proíba uma série de ações a essas pessoas, conforme seu corpo externalize um pênis ou uma vagina.

Chegamos ao ponto em que as roupas e a forma de apresentação do outro gênero se transformam em tabus. Assim aparecem já no texto da lei hebraica: " A mulher não deverá usar vestes masculinas, nem o homem se vestirá com roupa de mulher" (Deuteronômio 22,5). É preciso compreender o quanto o texto da Lei hebraica relativiza essa norma. Ela é paralela, por exemplo, à norma de ante um ninho de passarinho que caiu da árvore, deixar a mãe ir-se e pegar apenas os filhotes. Ela era hierarquicamente inferior a um mandamento, como por exemplo, obedecer aos pais. Um filho desobediente poderia ser simplesmente apedrejado (Deut 21, 18).

Não sabemos ao certo porque caminhos a cultura ocidental resolveu eleger como tabu o vestir-se como o gênero alheio e passou a ignorar o cuidado com os passarinhos ou fazer da rebeldia contra os pais uma estratégia de marketing, enfim, cada um busca a repressão que lhe apetece...

O fato é que, no processo de dominação, o masoquista, ao projetar seu Superego na Dominadora, recebe dela a ordem para quebrar um tabu.

Há quem fale em "permissão" para quebrar um tabu, mas devemos lembrar que as permissões e negociações são possíveis ao Ego. Id e Superego é que transitam pelo espaço das transgressões, ordens e proibições...

Na relação de dominação, o último ato do ego do masoquista foi deliberadamente submeter-se incondicionalmente à Dominadora. É, de certa forma e sempre, um ato de rendição. Quem olha externamente vê esse ato como uma rendição do masoquista à Dominadora, mas na dinâmica interna, é uma rendição do ego, que se reconhece como incapaz de se preservar ante os conflitos provocados pelo Id e Superego.

Tentando explicar rasteiramente o que se passa no inconsciente masoquista, diríamos que acontece um Curto-Circuito entre Id e Superego. Por algum motivo, o Id do masoquista desmonta a distinção entre pulsão de prazer e pulsão de morte. Toda a pulsão passa a ser de prazer. Ora, a melhor carta que o Superego tem na mão, para fazer valer suas normas, é a ameaça de destruição. Sem punição, não há norma. Porque não há como a norma nos coagir a fazer o que ela determina. Porém, o inconsciente do masoquista sabota toda e qualquer norma: instila na punição, na sanção que daria validade à norma, um vírus de prazer. A fonte das normas, o Superego, alimenta o repertório de imaginação do Id. Sabotado simultanemante pelos dois pólos que deveria mediar, o ego naufraga, pois onde antes havia conflito, agora há aliança...

O fato é que, a partir daí, o masoquista entra numa espiral de exploração de limites que se torna infinda. A energia do ego se esvai. Observem que é possível ser um masoquista solitário, mas não é possível ser um sádico solitário. A fusão entre pulsão de prazer e pulsão de morte no masoquista gera o alto risco de todas as práticas masoquistas solitárias e limítrofes. É possível se autoflagelar, se automutilar, se autoeletrocutar, se autoasfixiar...é possível perder a noção do limite de sobrevivência e simplesmente morrer. Por isso uma das recomendações aos masoquistas é: não tentem fazer sozinhos.

Em que ponto o masoquista se rende? Isso varia de pessoa para pessoa, alguns sequer começam sozinhos, pois se dirigem imediatamente para outra pessoa. Nem sempre há a necessidade de se passar por uma fase masturbatória de automasoquismo para então entrar no sadomasoquismo com parceiros...

O resultado final, porém, é sempre o mesmo. Estabelecido o contrato sadomasoquista, o masoquista projeta seu Superego na Dominadora, ela personifica todas as normas e todas as punições e concentra toda a possibilidade de prazer. Embora objetivamente isso pareça uma anomalia, uma escravidão, na verdade traz um grande prazer e um grande alívio ao masoquista. A projeção o libera do conflito, o Superego se projeta e o Id ocupa agora toda a vivência interior.

E o Ego? O ego será o vértice de toda a manipulação entre o Id e o Superego projetado na Dominadora. O Id entregará o ego que lhe transmitia as limitações para que seja punido, torcido e revirado pela Dominadora. Como um rato cercado por dois gatos, o Ego fica preso entre o Id no interior e o Superego projetado, sem mais nenhuma capacidade de controle. Terá por função assistir à perversão - agora no sentido literal - de todas as suas estratégias de coordenação do inconsciente.

Um elemento chave desse processo, no sadomasoquismo, é a despersonalização. Ensinado a obedecer à autoridade, por ser uma norma social aceitável, o ego é obrigado a admitir que é um escravo sem liberdade, um móvel, um bicho, um brinquedo, um objeto. Ao obedecer, pode ser obrigado a conflitar com as próprias normas sociais, observar o prazer que vive ao comer fezes, por exemplo, e ver-se incapaz de impedir esse ato, determinado pela Dominadora - o Superego projetado - e vivenciado prazerosamente pelo Id, que extrai prazer de tudo... A humilhação só é possível porque o ego permanece, pois o gesto que nos humilha precisa ter o significado cultural da humilhação. Se a urina fosse apenas considerada um remédio em nossa cultura, uma chuva dourada não seria humilhante o suficiente para dar prazer. Porém, nossa cultura que nega o corpo, estabelece como abjeta função de limpar latrinas, que dirá do tornar-se uma? Todo esse arrazoado não é acessível ao Id, que o recebe como prazer após o devido sofrimento do ego, que se esforça por entender o que acontece...

Um comentário:

  1. Parabéns! Muito bem feito! Destaco: "Não sabemos ao certo porque caminhos a cultura ocidental resolveu eleger como tabu o vestir-se como o gênero alheio e passou a ignorar o cuidado com os passarinhos ou fazer da rebeldia contra os pais uma estratégia de marketing, enfim, cada um busca a repressão que lhe apetece..."

    e

    "Sabotado simultanemante pelos dois pólos que deveria mediar, o ego naufraga, pois onde antes havia conflito, agora há aliança (...) Como um rato cercado por dois gatos, o Ego fica preso entre o Id no interior e o Superego projetado, sem mais nenhuma capacidade de controle. Terá por função assistir à perversão - agora no sentido literal - de todas as suas estratégias de coordenação do inconsciente."

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