sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O casal deve partilhar fetiches?


Para chegar junto do parceiro e confidenciar-lhe que quer experimentar uma ménage à trois ou participar numa orgia é preciso, acima de tudo, coragem. O risco de alguém ser mal interpretado perante fantasias desta ordem é enorme, sendo necessária uma cumplicidade muito grande entre o casal.

Mais arriscado ainda é reconhecer que só se obtém prazer em determinadas circunstâncias, como é o caso dos fetiches. Pés, sapatos de salto alto, determinada lingerie, vestir-se com roupa do sexo oposto ou até mesmo o uso de fraldas são apenas alguns exemplos.

"As fantasias eróticas, se a intimidade obtida permite a sua partilha, são potentes afrodisíacos, sem prejuízo de cada um dos parceiros poder albergar algumas que não deseja revelar. Quanto aos fetiches, no sentido patológico, a partilha não resolve o problema. Em geral, ao fim de algum tempo o parceiro/a do fetichista sente-se relegado para segundo plano e mal desejado", explicou ao CM Júlio Machado Vaz, reconhecido sexólogo, acrescentando que só existe vantagens na partilha de fantasias eróticas entre o casal: "Desde que, obviamente, as fantasias e os actos delas decorrentes sejam consensuais. No caso do fetiche, a partilha do problema pode, pelo menos, pacificar angústias e desaguar num pedido de ajuda."

Para a autora de ‘Fantasias Eróticas’, livro que contém o testemunho de cerca de cem mulheres, "a fantasia é algo muito íntimo que mora na imaginação de cada um". Isabel Freire revela que durante a pesquisa realizada teve várias mulheres a recusarem partilhar as suas fantasias: "Muitos desses casos diziam que transformar essas fantasias em palavras ou a sua concretização iria retirar--lhe todo o sentido."

Muitas mulheres optaram por manter os desejos sexuais em segredo por receio: "Algumas diziam que estava fora de questão partilhar essas fantasias eróticas com o parceiro, porque sabiam de antemão que não iam ser bem aceites."

CASAIS CHAMAM PROFISSIONAIS PARA FANTASIAS

As acompanhantes são muitas vezes chamadas para realizar as fantasias sexuais de casais. Maria Porto, jovem conhecida por ter um dos blogues mais visitados em Portugal e por ser autora do livro ‘A Tua Amiga – Confissões de uma Acompanhante’, explicou ao CM que "os casais costumam procurar os seus serviços para concretizar o fetiche de show lésbico". A grande maioria são "homens casados, entre os 35 e os 50 anos", que se soltam após o primeiro encontro com relações sexuais normais: "Há uma enorme timidez. Depois sentem-se na obrigação de explicar as razões do fetiche, devido ao receio de poderem ser considerados anormais".

EXEMPLOS
SHOW LÉSBICO
A fantasia mais vezes colocada em prática. Acompanhantes ou, por vezes, amigas ajudama concretizar este desejo.

PERSONAGENS
Conhecido por ‘role playing’, consiste em pedir à outra pessoa que actue segundo um certo papel: polícia, enfermeira, cowgirl etc.

INVERSÃO DE PAPÉIS
A mulher assume o papel do homem, penetrando-o com objectos fálicos.

BOTÃO DE ROSA
A estimulação oral do ânus é um dos fetiches mais difíceis de assumir por parte do homem.

"FANTASIA REFORÇA A RELAÇÃO" (Júlio Machado Vaz, Sexólogo)
Correio da Manhã – Quais as diferenças entre fetiche e fantasia?
Júlio Machado Vaz – Falamos de fetiche e fetichista quando alguém (em princípio homem) só obtém satisfação sexual na presença de um determinado objecto ou parte do corpo da parceira/o. Isso restringe em muito a vida sexual da pessoa e, em geral, provoca problemas na relação. As fantasias permitem ao casal construir cenários que reforçam a relação sexual.

– Quais as principais preocupações de um casal nas consultas?
– As fantasias só são problemáticas quando um dos parceiros se sente pressionado pelo outro a aceitar comportamentos que colidem com os seus princípios. No caso do fetiche, o pedido habitual é o de ajuda para que o funcionamento sexual do fetichista se liberte do espartilho e não fique dependente de um cenário repetitivo que é a negação da liberdade erótica.

– Quando assume contornos patológicos?
– O fetichismo a que me refiro é patológico por se tratar de um comportamento compulsivo sem alternativa. Completamente diversas e normais são as pequenas preferências que apimentam uma relação sexual. Uma coisa é não conseguir funcionar na ausência, por exemplo, de sapatos pretos, outra é preferir essa cor mas aceitar sem problemas outras variantes cromáticas.
André Pereira, in Correio da Manhã Online

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