sábado, 25 de agosto de 2012

A adolescência brasileira


Os problemas nessa fase da vida existem e não são poucos. O mais grave aspecto que envolve o adolescente brasileiro se refere à mortalidade por causas externas, entre as quais se destacam os óbitos violentos: homicídios, suicídios e acidentes, que atingem níveis alarmantes. Tudo se passa como se estivéssemos em guerra declarada. Hoje, na faixa etária que vai de zero a 20 anos, é entre os 15 e os 20 que se concentra a maior mortalidade. Há 30 anos, o grande desafio era reduzir a mortalidade infantil, ou seja, na faixa de zero a 1 ano de vida. De certa forma, essa batalha importante foi vencida. Houve um deslocamento do pico de mortalidade para a faixa etária entre 15 e 24 anos, bem como nos tipos de óbito, pois se antes a criança morria de desnutrição ou infecção, hoje os jovens estão morrendo por causas violentas. É esse o grande desafio de quem trabalha com adolescentes no Brasil na atualidade.

O que estaria determinando esses números? Não pretendemos esclarecer de forma definitiva o assunto, até porque sobre ele não existe consenso, mas podemos fazer algumas observações a partir de certas experiências.

Os jovens são vítimas e também agentes nesse cenário. Um aspecto evidente é que muitas dessas mortes são conseqüência do envolvimento com ações ilegais, até mesmo criminosas - jovens são mortos no enfrentamento entre grupos, por domínio e poder, ou no choque com a polícia. Muitas mortes decorrem de conflitos em bares ou bailes, onde a violência e as brigas terminam de forma trágica. Existe exagero quando se relaciona a violência à pobreza, embora essa relação seja em parte verdadeira. Estamos diante de um problema complexo, em que atuam muitos determinantes.

Um olhar mais cuidadoso para esta realidade encontra o que se chama de "comportamento de risco", e a morte é o resultado de um processo que tem seus antecedentes ou sua história individual e única. Por isso, o estudo de caso é uma ferramenta muito valiosa, pois nos leva a conhecer as singularidades dos componentes deste cenário. Falhas da função materna e paterna somam-se à falta de acolhimento, de oportunidades, num cenário social de carências e falta de seriedade por parte do Estado, pois a grande maioria desses jovens está em regiões carentes das grandes cidades.
Assim a "crônica da morte anunciada" é evidente. Em geral  ocorre algum problema na constituição familiar ligado à ausência do pai (é comum o adolescente ser filho de uma primeira ligação da mãe, e o novo parceiro dela não aceitar o jovem muito bem, podendo ocorrer hostilidade contra o rapaz). Alia-se a essa situação uma atitude superprotetora da mãe, que toma o filho como parceiro de suas desilusões, em geral submetendo-se aos caprichos de um jovem exigente. O quadro recorrente apresenta um jovem que, embora arrogante, não tem êxito nos estudos e no trabalho, e com freqüência é analfabeto funcional (de certa forma, resultado de falhas no processo educacional). Não se destaca em atividades esportivas e artísticas, ou não teve oportunidade de se descobrir competente em alguma delas. Em geral, a vida escolar torna-se algo sem valor. Não existe oportunidade para descobrir competências ou vocações desconhecidas. O comportamento agressivo manifesta-se diante de qualquer frustração.

Encaminhado para algum atendimento psicológico, ou não se vinculou ou foi atendido de forma inadequada. Ao se ver mais livre, o jovem envolve-se no consumo de drogas ilegais. Está no "olho do furacão", já que muito perto de se envolver com lideranças negativas ou com formas imaginárias de ter poder e conseguir realizar seus desejos através da violência.

Como interromper esse caminho é um desafio. Mas a experiência tem mostrado que a eficiência aumenta na medida em que se trabalha em parcerias, envolvendo todos os tipos de profissionais e a família. Mas principalmente atuar cedo e caso a caso.

Essa realidade é retratada de forma muito adequada e sensível no filme brasileiro Através da janela, que conta a história de um jovem e sua mãe em processo de luto pela morte do pai e marido. Os dois se envolvem numa dinâmica incestuosa, que, de um lado, alivia a dor decorrente da perda e, de outro, impele o jovem a um comportamento transgressivo, sem a interdição necessária da função paterna e com uma alienante conivência da mãe. No filme, o jovem acaba envolvido na criminalidade.

Do lado feminino, o adolescer vai lançar a menina diante de desafios de independência, de escolhas profissionais e da barreira do vestibular. É freqüente encontrar uma saída para esse desafio numa gravidez precoce, que a recoloca no papel de cuidadora de bebês, escolhendo ser mãe, o que funciona como uma solução inconsciente de retorno à condição infantil. Portanto, nem sempre a gravidez adolescente é indesejada. Pelo contrário, é uma saída, ou fuga, para o espaço doméstico como alternativa ao enfrentamento do árduo caminho para a vida adulta.

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