quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Bushido e suas origens



O código de honra do samurai tem origem em Mo-Tzu, pensador chinês que criou as bases do caminho do “servidor milItar não-nobre”
Por Rodrigo Wolff Apolloni
BushidoTalvez eu esteja ficando velho. Para mim – e, certamente, para muita gente de minha geração – a melhor representação do Japão não reside nos prodígios tecnológicos ou nos coloridos personagens de Harajuku, mas na figura do samurai. Esse personagem quase arquetípico que, em sua força trágica – de Miyamoto Musashi a Yukio Mishima, – levou ao extremo os valores da abnegação, da coragem e do destemor diante da morte.
É evidente a “niponidade” do samurai. O personagem, afinal, foi talhado ao longo de pelo menos cinco séculos de batalhas, governos militares, isolacionismo e divisão da sociedade em estamentos severamente vigiados. Sua figura, contudo, guarda uma raiz chinesa que, normalmente, é pouco percebida. Essa ausência de conexão, aliás, é compreensível: em primeiro lugar, porque a China não nos legou guerreiros tão emblemáticos, exceção feita, talvez, aos monges budistas de Shaolin; em segundo lugar, porque, enquanto o Japão gestava e nutria seus lendários guerreiros, a China vivenciava uma série de conflitos internos – entre as dinastias Yuan (mongol) e Qing (manchu) – que não fortaleciam a organização de corpos militares com o mesmo grau de comprometimento ou com a mesma homogeneidade institucional.
A ligação entre os elementos, porém, reside em tempos muito mais remotos, anteriores, mesmo, à organização do Japão como civilização. Ela se conecta às “Cem Escolas” de pensamento da chamada Era dos Reinos Combatentes, período que, no final da dinastia Zhou – mais exatamente, entre os anos de 480 e 221 a.C., até a unificação chinesa sob Qin Shi Huang – estabeleceu os fundamentos da mentalidade chinesa.
Foi o período de consolidação do Taoísmo, sistema de pensamento (e religião) nascido de uma metafísica ancestral, ligada à observação dos ciclos da natureza; foi quando surgiu, também, o Confucionismo, escola que pregava a ética e a benevolência como valores essenciais a todos os indivíduos, especialmente aos governantes; e também o Legalismo ou Legismo (adotado pelo imperador Qin), corpo filosófico que propunha um tipo de governo considerado por alguns como muito próximo daquele que, mais tarde, seria proposto por Maquiavel.
Foi o tempo, ainda, de severas discussões e ataques – algumas vezes, quase tão graves quanto os travados nos campos de batalha – entre filósofos, e também de releituras de escolas anteriores de pensamento. É nesse contexto que vai aparecer o filósofo que interessa à nossa discussão, a figura que estabelece a conexão entre o Kabuto (o elmo samurai) e as brumas chinesas: Mo Tzu ou  墨子, que viveu entre 470 e 391 a.C. e fundou o Moísmo.
O Moísmo, por certo, não tem a visibilidade do Taoísmo e do Confucionismo, em especial no Ocidente; talvez não tenha tido, mesmo, o impacto dessas escolas sobre a mentalidade chinesa. Teve, porém, grande importância no fortalecimento de certos valores, em especial os ligados ao pragmatismo, ao humanismo e à valorização do talento pessoal em detrimento da origem nobre do indivíduo.
A palavra chave – Feita uma apresentação sucinta (e, certamente, insuficiente) do Moísmo, podemos aproximar seus princípios da figura do samurai. Vamos fazer isso por meio da busca das raízes do termo Bushido, que designa o conjunto de regras – o caminho – que deveria ser trilhado por todo o guerreiro japonês. Personagem que, aliás, também era conhecido por bushi.
Mo Tzu | BushidoBushido é formado por três ideogramas, 武士道. Deles nos interessa, neste momento, o segundo (士), que guarda direta relação com o pensamento moísta. Tanto no idioma japonês quanto no chinês, o termo é lido como “shi” (*), e mostra algo como um sinal de mais assentado sobre uma linha. Qual seu significado? Em chinês, o termo “terra” é representado pelo ideograma 土 (“tu”), e parece guardar direta relação com “shi”; enquanto “tu” traz a linha horizontal de cima pouco menor que a de baixo, em “shi” ela é igual ou mesmo maior que a inferior. Em ambos os casos, o “sinal de mais” parece indicar uma pessoa de braços abertos, colocada de modo a indicar a posição do solo. Os braços abertos mais longos do que a terra indicariam a capacidade que certas pessoas têm de “abraçar o mundo”, algo que se dá, fundamentalmente, por seu talento. Que pessoas seriam essas? Segundo Mo Tzu, os indivíduos de origem não nobre capazes de prestar serviços relevantes ao seu país. “Shi”, portanto, significa “servidor” – os samurais, de fato, contavam-se entre os principais servidores de seus daimyo e do Xogum, o ditador militar.
Os outros ideogramas de Bushido reforçam o caráter do personagem. 武 – em japonês, “bu”, em chinês, “wu” – representa sua marcialidade. O ideograma é formado pela soma do ideograma que representa uma antiga espécie de lança ou flecha (弋, “yi”) e de “parar” (止, “zhi”); há, ainda, um traço horizontal colocado acima e à esquerda, indicando algo como “suspensão”; a ideia original de 武, portanto, situa a marcialidade como o esforço necessário para deter um oponente ou, então, colocar a guerra em um nível simbólico. Somados, os dois ideogramas formam 武士 (Bushi ou Wushi), termo que pode ser traduzido como “o servidor (não nobre, porém talentoso) militar”.
O último ideograma, 道 (“bu” ou “tao”), é o mais conhecido dos três, e pode ser traduzido por “caminho”, tanto o físico quanto o simbólico, ligado à jornada que leva à maestria ou à sabedoria.
Bushido ou Wushitao, portanto, serve para traduzir, em um termo, o caminho necessário à formação e à própria condição do guerreiro, o servidor militar. Uma ideia, enfim, nascida na antiga China e desenvolvida em toda a sua beleza e violência – em todo o seu valor simbólico e atemporal – no Japão dos samurais.
(*) – Neste artigo, por uma questão de facilidade de leitura, optamos por não utilizar o sistema pinyin de romanização dos ideogramas chineses.


Rodrigo Wolff Apolloni é jornalista e mestre em artes marciais.

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