sábado, 25 de agosto de 2012

Câncer de próstata

Tratar ou não?

Um especialista da Harvard Medical School e uma importante associação americana de profissionais de saúde garantem que o PSA não é 100% seguro e o tratamento tem efeitos colaterais terríveis, como a impotência. O que pensam os urologistas brasileiros?
BBC


A julgar pelos inegáveis avanços obtidos pela medicina nas últimas décadas, a pergunta é realmente pertinente. Cercado por interrogações sobre a forma com que é conduzido, o tratamento do câncer de próstata ganhou mais um capítulo polêmico no ano passado, quando um estudo divulgado pela United States Preventive Services Task Force (USPSTF) – uma respeitada associação independente de profissionais e pesquisadores de saúde – apontou que há pouca vantagem na aplicação do teste conhecido como Antígeno Prostático Específico (o famoso PSA), usado em muitos países, inclusive no Brasil, de forma disseminada como o principal exame para o diagnóstico, a monitoração e o controle da evolução da doença.

A polêmica coloca em lados opostos médicos a favor de manter o teste (como um dos primeiros passos para o diagnóstico e tratamento) e os profissionais que, como a USPSTF, defendem que a análise dos resultados mostra pouco ou nenhum benefício a longo prazo no PSA para a maioria dos homens que, a despeito de identificados como portadores do câncer, jamais chegariam a desenvolver os sintomas da doença. Mais ainda, o exame expõe desnecessariamente centenas de milhares de indivíduos testados, nos quais se detecta o câncer de próstata, a complicações comuns advindas do tratamento, como a impotência e a incontinência urinária (devido à remoção cirúrgica da próstata) e o sangramento retal (por conta do tratamento com radiação).

O controvérsia que move o debate sobre o teste de PSA envolve basicamente uma questão: é adequado começar o tratamento do câncer de próstata imediatamente após um resultado positivo em um exame de rastreamento, como o PSA? “O cerne da questão está realmente aí, pois nem sempre o câncer é agressivo a ponto de matar o indivíduo. Em muitos casos, o paciente identificado é tratado e morre em decorrência de outras complicações”, diz Alexandre Miranda, responsável pelo setor de Andrologia do Hospital Federal de Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), e membro da American Urological Association (AUA).

A força-tarefa da USPSTF ilustrou, em números, o exposto por Miranda: desde 1985, mais de 1 milhão de homens foram tratados após o resultado do teste de PSA. Pelo menos 5 mil morreram logo após o tratamento e outros 300 mil sofreram de impotência ou incontinência – ou de ambos os males. O pior de tudo: em muitos casos, a terapia foi, de certa forma, inadequada.

As controvérsias em torno do PSA não são novas e surgiram porque o exame de rastreamento, bem como o tratamento que vem a seguir, não é totalmente seguro. O teste, na verdade, não confirma que um homem é portador de câncer, apenas indica que o indivíduo poderia ter a doença. O certo é que, se ele fosse 100% eficaz, os homens com tumores pequenos e curáveis seriam medicados, evitando tratamentos desnecessários com efeitos colaterais graves.

“O PSA é um marcador específico. Ele indica a quantidade da proteína antígeno prostático específico produzida pelas células da próstata. Essa, por sua vez, pode estar em níveis elevados por diversas razões, como a proliferação de células malignas ou o crescimento benigno da próstata em decorrência da idade. Ou seja, o exame não diz com precisão se o sujeito tem realmente um câncer de próstata e se este é agressivo ou não, algo que faz toda a diferença na maneira como o tratamento da doença deve ser conduzido”, diz Paulo Rodrigues, ex-presidente da sucursal fluminense da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e atual diretor do Instituto Albarran de Urologia.

Em entrevista à revista Scientific American (edição de março), o médico americano Marc B. Garnick, especialista em câncer de próstata da Harvard Medical School e do Boston Beth Israel Deaconess Medical Center, corroborou as palavras do colega brasileiro. “Um teste positivo de PSA indica que os homens devem se submeter a uma biópsia, o que envolve desconforto e risco. E isso não é o pior. A biópsia pode distinguir os homens que realmente têm câncer de quem provavelmente não tem. O verdadeiro problema é que os médicos não dispõem de uma forma confiável para determinar quais desses pequenos tumores identificados pela biópsia são potencialmente perigosos e quais nunca incomodarão um homem”, diz.

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