quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Pedofilia e exploração sexual cercam crianças em escolinhas de futebol

Em série de reportagens, Correio denuncia o crime escondido por trás de promessas de uma carreira de sucesso no futebol. Abusos, pedofilia e redes de exploração sexual envolvem crianças e adolescentes que, para ficarem nos gramados, acabaram violentados
Renata Mariz
Juliana Braga
Iano Andrade
Publicação: 10/08/2012 04:05 

Torcedor do Santos e fã de Neymar, Pedro colocou nas aulas da escolinha as expectativas de um sonho. Hoje, o uniforme foi destruído e a vontade é esquecer o trauma vivido (Iano Andrade/CB/DA Press)
Torcedor do Santos e fã de Neymar, Pedro colocou nas aulas da escolinha as expectativas de um sonho. Hoje, o uniforme foi destruído e a vontade é esquecer o trauma vivido


Campo Grande — Podia ser de glória, alegria, de gol. Mas o grito preso na garganta de Francisco tem a ver com medo e vergonha. “Sinto muita raiva deles”, desabafa o garoto de topete no cabelo. Aos 12 anos, quando foi levado por um vizinho da família para jogar em uma escolinha de futebol próxima de casa, na periferia de Campo Grande, sentiu pela primeira vez a chance real de se tornar um ídolo dos gramados, como sonhara.

O homem que alimentava as esperanças do garoto — com elogios, presentes e promessas — era o mesmo que, vez por outra, ajudava os pais dele com algum socorro financeiro. Ficava difícil compreender por que o “professor” tão generoso o despia, manipulava seu corpo, pedia que ele retribuísse os carinhos, por mais que Francisco tentasse demonstrar que não gostava daquela situação. Os abusos pioraram depois que o treinador chamou mais dois amigos, também instrutores de futebol, para participar das “brincadeiras”.

“Já fiz sexo oral com os três juntos. Não entendia porque eles queriam aquilo, me sentia muito mal”, diz Francisco. A violência durou quase dois anos, até que o menino, já aos 15, mudou de endereço com a família. Longe do problema, o rapaz preferiu manter a história em sigilo para, um dia, se esquecer de tudo, da mesma forma que já nem se lembrava mais da vontade de ser um craque. No ano passado, porém, depois de ser preso em flagrante por abusar de duas crianças, José Martins de Santana, o “prestativo” professor de 49 anos, listou para a polícia nomes de outras vítimas, recentes e antigas, algumas de apenas 5 anos.

Daniel Tracunháem

"Ele dizia que eu tinha potencial"
Louco por futebol, o fã de Ronaldinho Gaúcho frequentou, por cerca de dois anos,
 uma escolinha particular de Tracunhaém, cidade onde mora, na zona da mata pernambucana.
Em meados do ano passado, sem explicação aparente, quis abandonar as aulas. %u201CEu não entendi.
Quando o treinador vinha procurar por ele, mandava dizer que não estava, ficava agressivo, gritava.
Eu perguntava o que tinha acontecido, mas ele nunca dizia nada%u201D,
conta Cecília, mãe de Daniel, de 14 anos.
Uma febre intermitente, alergia pelo corpo todo e um caroço na virilha, porém, impediram
o garoto de continuar escondendo a violência sofrida. Depois de dois meses rodando por hospitais,
um exame de sangue revelou que Daniel, apesar da pouca idade, estava com sífilis em estágio avançado.
"Foi com uma menina de 13 anos que mora no Recife", tentou sustentar, chorando.
Uma semana depois, com os questionamentos constantes da mãe sobre o autor da violência,
o menino conseguiu contar, por meio de um bilhete.
"Tarde da noite, me levantei e ele tinha deixado o papel para mim, com o nome do Braga."
Atualmente preso, Nivaldo Braga, que prometia levar Daniel e outros garotos para jogar em grandes clubes,
fez pelo menos mais três vítimas na cidade, segundo o delegado Odívio Vasconcelos, que cuidou do caso.
Além do sofrimento com a situação, a família de Daniel, que mora em uma casa simples dentro
de um loteamento na beira de uma rodovia federal, teve que enfrentar a falta de estrutura para denunciar.
 "Dei duas viagens ao conselho tutelar, mas só encontrava a moça da limpeza, então fui na promotoria,
depois para a delegacia, IML", lembra Cecília. Para garantir o atendimento psicológico, que deveria ser oferecido pelos Creas nos municípios, mãe e filho tinham que percorrer quase 80km, até a capital, Recife
Mas o trauma não impediu Daniel, que joga na ponta esquerda, de sonhar com a carreira. Torcedor do
Náutico e do Corinthians, ele elenca suas qualidades. "Chuto com os dois pés, tenho visão de jogo, dou
um bom passe, olho para todos lados e faço gol", afirma o garoto. Enquanto recoloca dentro de um saco
plástico os exames e receitas para o tratamento de Daniel, Cecília conta que, apesar de ter medo, quer
atender aos pedidos do menino de frequentar uma escolinha de futebol em uma cidade vizinha. "Lá tem
mais estrutura, as pessoas parecem sérias. Mas ainda estamos pensando. Sei que é um sonho para ele."
O nome do adolescente e de seus respectivos parentes são fictícios, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente.



Henrique Campo Grande

"Ele vinha aqui em casa, me ajudava muito. Fazíamos churrasco no aniversário dos meninos,
 estava sempre na vizinhança"
A incredulidade tomou conta de Joana quando um homem preso por pedofilia, ano passado, apareceu
em um programa popular da televisão sul-matogressense. "Não consegui acreditar", lembra a mulher de
cabelos oxigenados que trabalha como manicure. O rosto era de José Martins, professor de futebol de
seus dois filhos mas também considerado um amigo. "Ele vinha aqui em casa, me ajudava muito. Fazíamos
churrasco no aniversário dos meninos, estava sempre na vizinhança", conta Joana, de 32 anos. "Comecei
 a entender o motivo de tantos presentes para os meninos, até uma bicicleta ele deu para o Henrique.
Antes eu achava que é porque ele era sozinho e gostava da nossa companhia."
Questionado pela mãe, o filho mais velho negou qualquer abuso. O mais novo, Henrique, que conviveu
com o pedófilo dos sete aos oito anos, quis chorar quando Joana perguntou se o professor já havia tocado
em suas partes íntimas. Nervosa, a criança respondeu: "Eu também vou ser preso?". Depois que Joana
explicou que nada aconteceria com ele, mas era preciso dizer a verdade, Henrique confirmou os abusos.
"Ele entrou na minha casa, ganhou minha confiança para fazer uma coisa dessas", revolta-se a mulher.
E confidencia, em tom de voz mais baixo: "Eu acho que ele dava dinheiro para o Tales (filho mais velho) se
afastar do Henrique."
Assim como Joana, outros pais e mães do Colibri, bairro de Campo Grande afastado do centro, acreditaram
 nas boas intenções do professor, que agia em diversas localidades da cidade, conforme a confissão dada à
 polícia depois de ser preso em flagrante. "Ele vinha na nossa casa para se apresentar, convidar os meninos.
Aí pegava as fotos deles, tinha ficha de inscrição, tudo direitinho. A gente nunca ia imaginar uma coisa dessas,
eu até deixei meu filho viajar uma vez para um campeonato", afirma Mara, mãe de outro garoto que também
treinava com Martins. A impressão de seriedade da escolinha modesta, que cobrava pequenos valores dos
alunos e funcionava em um campinho público, compensava a falta de grandes jogadores revelados pelo treinador.
Além do mais, Martins estava sempre pronto a ajudar as famílias, inclusive financeiramente.
"Teve um mês que ele pagou meu aluguel", diz Joana. A relação próxima com os parentes inibe os garotos de
denunciarem a violência. Principalmente quando têm pouca idade, explica a psicóloga Monica Café,
especialista no tema, as vítimas não conseguem compreender a dimensão do abuso. "Isso causa muita
confusão na cabeça das crianças, porque embora ela possa se sentir invadida e impotente, as zonas erógenas
do corpo quando manipuladas dão prazer. E aí a personalidade pode ficar muito mexida", diz.
O nome do adolescente e de seus respectivos parentes são fictícios, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente.


Francisco

Francisco Mato Grosso do Sul

"Não entendia porque eles queriam aquilo, me sentia muito mal"
Correr pela poeira dos campos improvisados, de terra batida, com traves enferrujadas, não era problema
para Francisco. Ao ser chamado para treinar por um vizinho, instrutor de futebol, o menino com então 12 anos
 encarava cada partida na escolinha de um bairro carente de Campo Grande como se fosse uma Copa do
Mundo. "Que moleque não quer ser um jogador de futebol?", diz.
Elogios, presentes, promessas acalentavam o sonho do garoto, ao mesmo tempo que reforçava o vínculo
com o treinador, que se tornou amigo da família. "Comecei a perceber que ele queria alguma coisa em troca",
lembra Francisco. Não tardou para o técnico, José Martins de Santana, atualmente preso por abusar de mais
de 10 crianças e aguardando julgamento, assediar o menino.
A situação piorou quando dois amigos de Martins, também professores de futebol em escolinhas de rua da
capital sul-matogrossense, também passaram a abusar do menino. "Não entendia porque eles queriam aquilo,
me sentia muito mal", lembra Francisco, hoje com 19 anos. Depois de um período fora da escola e usando
drogas, buscou na espiritualidade uma tentativa de apagar.


Pedro Mato Grosso do Sul

"Sabia que se eu falasse, ela (a mãe) ia me tirar da escolinha"
As semelhanças com o ídolo Neymar não se restringem ao corte de cabelo. Pelo menos Pedro, 13 anos,
garante que faz arte com as chuteiras. A habilidade, confirmada pelos moradores do Canguru, bairro pobre
de Campo Grande, chegou aos ouvidos de um treinador local no final do ano passado. Quando o homem
chegou à casa dele para convidá-lo para frequentar uma escolinha próxima, Pedro surpreendeu a mãe, Neusa.

Chamou Neusa no quarto que ele divide com o irmão mais velho e disparou: "Mãe, não quero ir".
Naquele momento, a mulher sentiu que o seu craque preferido ainda estava abalado pelo escândalo na
última escolinha que frequentou. O professor do menino, Antonio Alves de Oliveira, abusava dos alunos
depois dos treinos.Os garotos, por sua vez, silenciavam, com medo de perder a chance de continuar no time
e, quem sabe, ser visto por algum "olheiro".
Há cerca de um ano, cientes da situação depois que um garoto de 13 anos, também jogador da escolinha,
contou para os pais o teor das propostas que vinha recebendo de Oliveira, parentes dos garotos se uniram
 para denunciar o homem, que está foragido. "Sabia que se eu falasse, ela (a mãe) ia me tirar das aulas...Mas ela também iria ficar decepcioada pois tinha muitas esperanças de eu vencer e a família sair da miséria.
 





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