sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A mulher e um homem primitivo.





Por Abilio Machado.

Essa mulher que me deixa louco, cabelo encaracolado, que se veste de maneira simples, que cheira a uma loucura tão boa que me causa mil desejos, uma doce mulher, por vezes submissa, poderosa, violenta, boca suja e que chora. Tem vezes que me olha pedinte e em outras as faíscas que lampejam de seus olhos me invadem, me rasgam por inteiro, arrancam minha veste assim do nada num pequeno instante e tem o dom de me negar em muitas noites o aconchego.
Eu que ainda me procuro, que me insisto, me deixo ser um doce homem vestido de nada, cabelo escroto, de sobrepeso e ainda deixado por aqui na terra, nas dores de uma isquemia cardíaca, e quando me enrosco, me encosto e recebo de tuas mãos a leveza do céu, me tocando o corpo com a mão de algodão doce, eu neste corpo de homem das cavernas, recoberto de pelos que apareceram com os anos, dizem que de amadurecimento e eu acho que é de retrocedência ao meu lado primitivo, animal, preguiçoso e insano, pérfido eu.
Um doce homem das cavernas que odeia lavar a louça, mas adora te apanhar no colo e lamber suas costas, de agarrá-la por inteira e ouvir o coração. Um bruto e delicado ser dos antigos tempos, sem trejeitos e que adora servir aos teus caprichos que lhe fazem mulher. Entregando-se ao teu perfume, à tua maneira meio obscena de falar durante o ato, provocando os espamos na hora intransponível que transgredimos os atos eu ali de sólido caule a tomar sua flor.
Este punhado de lembranças me acolhem os minutos quando relembro das nossas loucuras de sob a água morna embebedávamos os sentidos como se estivéssemos cobertos pelo véu de uma cascata, o banho, o cheiro, o sabonete, as invasões, os gemidos e o gozo.
E há vezes que me deixa assim palavra abstrata e quase nula, perdido no campo de batalha de cajado na mão a se perder em apenas lembranças, e visualizo você, ali, nua, a me botar de bruços sob teu jugo como se em instantes perfeitos nossos corpos se invertessem e nos teus sussurros me falassem em língua antiga que me venceu mais uma vez, eu ali recebendo de tuas mãos a tortura, em delírios provocados pela tua língua, numa guerra indígena de corpos nus.
Em meu corpo a batalha, apelos, devaneios e pelos. Uma subtração que parece me fazer um favor, um fervor da mais insana reza... Uma reza de tomada, que vem, sem pressa e me refaça das agruras do dia, me desgasta a cada medo da ausência, me amassa entre seu corpo e o lençol e me domine, como nunca antes feito, vem, e me faça da planta, muda, e em seus braços, seu!

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