segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Os Office Boys


Os Office Boys.

Por Abilio Machado. 2013.

Pedro virou para o garoto, office boy como ele, também estudante como ele, que abocanhava um grande x-salada da promoção, ali sentados, numa das mesas da Lanchonete Clara Lanches, a comida e o preço ótimos, mas o cheiro de fritura ainda seria a preocupação do lugar...
__Ontem eu arrisquei, e sai com o Valldman.
__Não diga! Você é louco! E a tua namorada?
__Ah, não faz mal, ela não vai ficar sabendo. E afinal só demos uma saída e nos pegamos, ele é um senhor bem distinto.
__Eu não teria coragem, só de pensar numa coisa dessas fico tremendo de medo, ainda mais assim com um homem já feito.
__Mas você nem namora José... Pode fazer o que quiser, poderia achar alguém e pelo menos assim se insurgir nesta cidade tão conservadora.
Os dias passaram e os dois se encontram de novo, tomaram café juntos. E Pedro contou o que aconteceu:
__ Desta vez foi derradeiro, saí com o Valldman de novo, e fomos de carro até o Cristo e fizemos amor lá perto, na relva, num final de tarde e o céu estava lindo.
__Você é louco mesmo! E a tua namorada?
__Bobagem, ela não vai ficar sabendo. Mas o que fizemos foi tão bom, nada de mais, além dos beijinhos fizemos um sexo tão supernatural, você não imagina como ele é carinhoso, me tratou super bem, com calma sabe?!
__Nossa Pedro, não sei o que dizer a você, fico nervoso com isso, só de pensar. Sei que aquela vez que fizemos isso quando ainda éramos pequenos, mas poxa, me assusta.
Na segunda-feira, José não apareceu no encontro de sempre, todas as segundas na lanchonete, coisa assim de anos desde que começaram a trabalhar. Nem na terça, nem na quarta. Na quinta, outro boy disse que estava trabalhando no lugar do José, que não sabia o motivo, mas para ele estava sendo bom, fazia tempão que procurava emprego.
Pedro mais uma vez pegou o telefone e ligou para a casa do José.
Foi a mãe que atendeu:
__ Oi Pedro, tudo bem na medida do possível. Ele está doentinho. Mas eu digo que você ligou.
Os dias passaram e nada. Nada mesmo.
Pedro estava chateado, ligou de novo e mãe de José atendeu mais uma vez:
__ Ele não está agora, verdade mesmo, não está Pedro, sei que você está preocupado, eu aviso sim. É ele resolveu sair do emprego de vez mesmo, acho que não volta mais a trabalhar na loja. Pode deixar que eu digo que você telefonou.
Encontrou José uns quatro meses depois, por acaso, no calçadão, se assustou quando o viu, estava magro, usava uma touca na cabeça, seu rosto estava chupado, meio cadavérico, quando se cumprimentaram a voz saiu fraquinha, quase um sussurro, a mãe veio rápido e quis levá-lo.
__ Deixa mãe, me deixa conversar com o Pedro, vamos nos sentar? Eu me canso rápido.
__Que surpresa José, eu fiquei preocupado contigo, não me deu notícias, não retornou minhas ligações.
__É que eu fui surpreendido, aí tudo aconteceu, meu mundo ruiu!
__É, dá pra ver, né? Me conta, o que houve? Você sempre tão certinho, me policiava por que eu estava tendo um caso com o Valldman, viúvo, concöentão. Mas você não nem namorava...
__Não mesmo. Não namorava mas frequentava uma boate gay ali perto da Praça Tirandentes, e sabe como é entre um drinque e outro conheci um garoto aqui e outro ali, entre as bebidas rolava um sexo, e nessa eu recebi o prêmio...
__Como?
__ É isso que pensa mesmo, fui infectado, sou soro positivo, mas como já tenho antecedente de doenças de câncer na família a coisa foi, ou melhor, está sendo mais rápido que era para ser. Além é claro que também era amante de um homem casado lá da Igreja, na verdade eu te dizia aquilo tudo, mas era para mim que eu dizia, espero que me entenda, ok?
Fazia perto de dois anos que eles se encontravam. Agora Pedro olhava José, queria abraçar o amigo, mas dava medo de machucar.
Toda semana, às vezes mais de uma vez, até nas férias. Queria dizer algumas palavras, mas dizer o que, quais palavras?
Despediram-se ali mesmo na calçada.
__Agora, vê se mantém contato, tá ok?/
__Na medida do possível, e você como está?
__Eu estou bem, olha chegou minha carona.
__Ainda saindo com ele?
__Sim, nós estamos bem, agora moramos juntos, apareça qualquer dia, certo?
__Na medida do possível, Pedro, na medida do possível.
No carro, Pedro ainda olha para o amigo que ficou para trás.
__Amigo seu?
__É e me surpreendeu, pois eu achava que o galinha era eu...
O carro virou a esquina e José acompanhou sua mãe à Igreja em busca de salvação.

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