quarta-feira, 22 de julho de 2015

Filhos são do mundo

(José Saramago)



"Devemos criar os filhos para o mundo. Torná-los autônomos, libertos, até de nossas ordens. A partir de certa idade, só valem conselhos.

Especialistas ensinaram-nos a acreditar que só esta postura torna adulto aquele bebê que um dia levamos na barriga.

E a maioria de nós pais acredita e tenta fazer isso. O que não nos impede de sofrer quando fazem escolhas diferentes daquelas que gostaríamos ou quando eles próprios sofrem pelas escolhas que recomendamos.

Então, filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo!

Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado.

Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo!
Então, de quem são nossos filhos? Eu acredito que são de Deus, mas com respeito aos ateus digamos que são deles próprios, donos de suas vidas, porém, um tempo precisaram ser dependentes dos pais para crescerem, biológica, sociológica, psicológica e emocionalmente.

E o meu sentimento, a minha dedicação, o meu investimento? Não deveriam retornar em sorrisos, orgulho, netos e amparo na velhice?
Pensar assim é entender os filhos como nossos e eles, não se esqueçam, são do mundo!

Volto para casa ao fim do plantão,início de férias, mais tempo para os filhos, olho meus pequenos pimpolhos e penso como seria bom se não fossem apenas empréstimo! Mas é. Eles são do mundo. O problema é que meu coração já é deles.

Santo anjo do Senhor...

É a mais concreta realidade. 
Só resta a nós, mães e pais, rezar e aproveitar todos os momentos possíveis ao lado das nossas crias, que mesmo sendo emprestadas são a maior parte de nós !!!
A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver "

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Não vou ter medo e nem vou abrir os olhos...



Desde muito cedo, sempre a remoer o medo
Sempre a remoer o medo...
O corpo parece gritar.
Uma necessidade de fugir deste lugar
As paredes parecem pequenas
As cores me assustam mais que o cheiro das flores
Lhe vi no corredor, parado,
Segurando sua bengala, meio ancorado
O sorriso que enfeitiça a mostrar os dentes brancos
Apesar de todo cigarro que consomes
Junto de teu vinho...
Tua casaca me faz lembrar os meus delírios noturnos
De vampiros e viver as manhãs e nem mais vê-las...
Ao pensar nisso me acordo e...
Está de pijama, xadrez, a esticar-me a mão:
__Você vem?!
Algo me diz:
__Não tenhas medo.
__Fecha os olhos.
E eu assim fiz...
Breves segundos...
Quando os abri, só via teus olhos próximos
Seus lábios sobre os meus
Sua pele acordada a encostar-se a mim...
Será, penso eu que lembras?
De como foi para mim...
Um toque sem igual a me puxar pelo semi escuro para o quarto
E ali derradeiro a me livrar das roupas...
E naquele tremor antecedente
Meio adolescente
Falei com coragem a mim sussurrando:
__Não vou ter medo nem vou abrir os olhos,
Se eu acordo e não te encontro:
__ Sei que esmoreço!

A (in)tolerância



Letícia Thompson


As flores toleram as abelhas, mesmo se estas lhes tiram o néctar, mesmo se, por vezes, por acidente, uma pétala se machuca.

A natureza tolera os ventos que arrastam folhas e quebram os galhos, tolera as torrentes e correntes que não perguntam o que carregam na sua passagem.

A própria lua tolera as mudanças e acolhe serenamente cada fase com dignidade.

Só nós, humanos e racionais, somos assim intolerantes com a vida, com o próximo, com o que nos acontece, com o que deixa de nos acontecer, com as diferenças e os diferentes que mal suportamos.

Damos de nós e queremos ficar inteiros; recebemos e queremos continuar os mesmos, abastados do nosso eu, sem as máculas dos pecados que nos deixariam iguais a todo mundo.

Queremos amar o que nos é próximo, pois que nos disseram "ama a teu próximo" sendo que esse outro deve ser uma correspondência daquilo que somos. O que é diferente nos decepciona e nos faz sofrer.

Por isso cobramos tanto dos outros e permitimos que essa negra nuvem encha nossa alma de tristeza ao depararmos com ações e reações diferentes das que esperamos.

Mas não é amar tolerar que o outro seja outro e aceitar com resignação e alegria até que, mesmo nos possíveis deslizes, esse encha nossa vida de novos ares e novas flores?!

A tolerância é uma incontestável prova de amor e de humildade; é o eu que se inclina para se reerguer mais rico, mais pleno, mais aberto, mais solto e mais livre.

Mais livre!!! E por isso mesmo mais feliz!

Ser flexível na vida não é se curvar. É simplesmente abrir-se como abrem-se nossas janelas para que o sol entre e ilumine nosso recinto. É um ceder que nos enobrece, pois nos permite degustar da vida nos seus mínimos detalhes.